Os primeiros habitantes das Ilhas do Arquipélago do Delta do Jacuí foram os índios do grupo guarani. Porém a ocupação e povoamento de seu território teve início no século XVIII, quando, para assegurar o domínio das terras, defendendo-as contra os espanhóis, a Coroa Portuguesa incentiva a vinda de colonizadores europeus, vindos do Arquipélago dos Açores. Desse modo, a partir de 1752 passaram a se fixar na região famílias vindas das ilhas que compõem aquele Arquipélago: Corvo, Flores, Graciosa, São Jorge, Faial, Pico, Terceira, São Miguel e Santa Maria. Seus descendentes hoje são as famílias Azevedo, Martins, D’Avila, Menezes, entre outras.

Ao chegarem aqui, fundaram a cidade de Porto Alegre, e iniciaram a ocupação de algumas ilhas do Delta do Jacuí, entre as quais a Ilha da Pintada. Os colonizadores trouxeram consigo hábitos e costumes que se perpetuam até hoje, constituindo na Ilha da Pintada uma cultura com forte marca açoriana. E, por se tratar de uma região com características e recursos semelhantes ao lugar de origem, constituíram uma cultura peculiar, destacando-se, entre suas marcas, uma estreita relação das pessoas com a natureza, o respeito às águas, a prática da pesca artesanal, o artesanato, a culinária, como o peixe assado, o bolinho de peixe, os doces de ovos. Essa presença é observada no cotidiano, presente nas histórias que são contadas, nas lendas, nas superstições, na religiosidade (em especial com a devoção ao Divino Espírito Santo), nas técnicas de construções de barcos e redes de pesca, entre outros elementos da cultura local.

Ao lado da marca açoriana, a presença negra é tão importante quanto aquela na constituição do patrimônio cultural da Ilha, e também data do século XVIII, quando recebia grupos excluídos da partilha de terras pela Coroa. Há indícios de que escravos e negros alforriados se refugiavam na região, e muitos deles se tornaram proprietários de terras nas ilhas do Delta do Jacuí. As marcas de sua presença surgem a todo o momento, em especial nos nomes de pontos geográficos, como a Ilha da Maria Conga, o arrio do Congo, o saco do Quilombo, a Ilha da Maria Monjola. Todavia, não era uma convivência muito fácil, e os negros eram hostilizados, de modo que preconceito e discriminação marcaram a história das famílias negras que ousaram fixar-se na região. Mesmo assim, famílias negras, com muita luta e obstinação, permaneceram e fincaram suas raízes na Ilha da Pintada, contribuindo para que hoje a Ilha da Pintada seja diversa, rica e multicolorida em suas expressões culturais. Dessa mescla cultural hoje aparecem indícios no sincretismo religioso (como a festa da Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá), na culinária, no artesanato com tear de prego, entre outras.

Portanto, falar da comunidade da Ilha da Pintada é sinônimo de multiculturalismo, mestiçagem e complexidade, numa teia complexa de elementos que caracterizam o inventário cultural de seu território e de suas pessoas.